Lisboa, 07 Mar (Lusa) - O Programa Especial de Realojamento (PER) apareceu em 1993 com a promessa de acabar com as barracas nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, mas 15 anos depois ainda há alguns milhares de famílias por realojar junto das grandes cidades.
Quando foi criado o PER (Decreto-Lei 163/93), a carência de habitação estava estimada em 30 mil fogos, mas o levantamento feito pelo antigo Instituto de Gestão e Alienação do Património Habitacional do Estado (IGAPHE) apontava para a existência de cerca de 43 mil barracas nas áreas de Lisboa e Porto e a necessidade de construção de mais de 48 mil habitações.
Se quando apareceu, em Maio de 1993, parecia a solução ideal para o problema das barracas, o PER revelou-se um programa de aplicação demorada e limitado, pois não previu o aumento das famílias inicialmente recenseadas, que entretanto tiveram filhos, nem a posterior chegada de novos agregados aos bairros.
Segundo dados oficiais, aderiram inicialmente ao PER 19 municípios da Área Metropolitana de Lisboa (AML), que apontaram a existência de 28.651 barracas, e nove da Área Metropolitana do Porto (AMP), com 13.479 barracas.
Contudo, antes de aparecer o PER para a AML e AMP, vários municípios haviam já feito acordos com o Governo para desenvolver programas de habitação social para arrendamento destinados a realojar população em barracas.
Um relatório de avaliação feito pela Plataforma Artigo 65 em 2006, com o apoio da Associação Solidariedade Imigrante, apontava a falta de rigor nos recenseamentos por parte de algumas autarquias, o peso burocrático do PER e a falta de acompanhamento social, entre outras lacunas.
Algumas autarquias reconhecem que, depois do recenseamento inicial, houve laxismo na fiscalização e demolição das barracas desocupadas, mas queixam-se que o Governo lhes “atirou o problema para cima”, limitando-lhes depois o poder de resolução, quando proibiu os endividamentos para habitação social.
“O entrave imposto ao endividamento dos municípios para habitação travou o avanço do PER durante alguns anos e atrasou a resolução do problema”, disse à Lusa o vereador com o pelouro da Habitação na Câmara de Loures, um município que adiou a conclusão do PER para 2009.
João Pedro Domingues mostra-se convicto de que “o PER não pode acabar aqui”.
“A autarquia está a apostar no PER Famílias - programa que veio complementar o PER e prevê a compra de casas a baixo custo com apoio de 40 por cento da tutela e 20 por cento dos municípios - para responsabilizar os agregados familiares na compra da habitação, mas só isso não resolve o problema”, admitiu.
“O Governo deve ajudar a encontrar solução para as famílias que ficaram fora dos programas de apoio à habitação entretanto criados. É que só o Prohabita [que prevê, por exemplo, o apoio no arrendamento de uma casa durante dois anos para estas famílias] não é solução”, acrescentou.
Neste momento, segundo dados da autarquia, Loures tem ainda um total de mil famílias para realojar e as maiores concentrações de barracas são na Quinta da Serra, no Prior velho, e na Quinta das Mós, em Camarate.
Para concluir o PER em 2009 a autarquia pretende construir e adquirir 1.600 fogos, número superior ao de famílias à espera de habitação no concelho, mas que já prevê a possibilidade de crescimento dos agregados familiares.
“Tudo isto vai custar à câmara uma média de 1,9 milhões de euros por ano”, revelou.
Também a Amadora, o município que a par de Lisboa mais famílias tinha a viver em barracas, aponta a proibição de endividamento para habitação social como a grande causa do atraso do Programa Especial de Realojamento.
“A impossibilidade de endividamento das autarquias para habitação social durante alguns anos travou o avançar do processo”, contou à Lusa a vereadora Carla Tavares, responsável pela área da Habitação.
Em 2005 a autarquia pediu prorrogação do prazo e “está agora a reprogramar o PER em termos financeiros com o Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU)”, apontando para 2013/2015 a conclusão de todo o processo, abrangendo famílias PER e ‘não PER’.
Por resolver, segundo a autarquia, estão ainda os casos de 2.000 agregados familiares. As maiores concentrações estão nos bairros do Alto da Damaia (594 famílias), Santa Filomena (545) e Quinta da Laje (510). Há ainda centenas de famílias a viver em barracas no bairro estrela de África, 6 de Maio e Estrada Militar.
Carla Tavares reconhece que o programa Prohabita “veio abrir possibilidades para as autarquias resolverem alguns problemas das famílias que chegaram depois do PER”, mas reconhece que o programa acaba por ser contraproducente.
“Como prevê apoio de renda durante dois anos há famílias que tendo esta possibilidade agarram-se a isto e não querem avançar para outras opções, como o PER Famílias, em que ficam mais responsabilizadas na compra da habitação”, explicou.
Para dar mais um ‘empurrão’ no problema a autarquia criou ainda outras soluções, como o apoio de 20 por cento para compra ou apoio em obras em habitações que as famílias tenham no seu local de origem (Programa de Apoio ao Auto Realojamento) e o programa Retorno, mais direccionado para população cabo-verdiana em fim de vida activa.
A autarquia tem para este ano um orçamento que ultrapassa os 3,8 milhões de euros para o PER e até 2011 prevê investir mais de 12,7 milhões.
Já em Lisboa, segundo dados do IHRU referentes a Dezembro de 2007, no levantamento PER efectuado estavam contabilizadas 10.034 barracas e foram previstos 11.129 fogos para realojar estas famílias. No final do ano passado estavam concluídas ou tinham já sido compradas para realojamento 9.135 habitações, num total de comparticipação estatal de 178.661.678 euros.
Além destes fogos, segundo os mesmos dados, estavam previstas para realojar através de arrendamento no acordo assinado em 1987 com a autarquia 8.463 habitações e em Janeiro de 2007 faltavam aprovar 637 fogos.
Situação bem diferente tem a autarquia de Cascais, que recenseou 2.039 agregados familiares quando aderiu ao PER e destes realojou até agora 1.664, de acordo com dados recolhidos pelo município.
Depois de actualizar o recenseamento, a autarquia diz ter por realojar 75 famílias PER, no Bairro do Fim do Mundo (20), em S. Domingos de Rana (21), em Matarraque (16) e as restantes em locais dispersos pelo concelho.
Além destas famílias, há outras 26 ‘não PER’ no bairro do Fim do Mundo que a câmara pretende realojar com recurso ao Prohabita até 2009, altura em que prevê ter o PER concluído.
Na margem sul, Setúbal e Almada eram os municípios onde o problema das barracas era mais visível.
Setúbal concluiu o programa em 2002, tendo entregue segundo a autarquia um total de 1.276 fogos. Além das barracas, o PER contemplou cerca de 600 casas degradadas.
Contudo, tem ainda algumas concentrações de clandestinos espalhados pelo concelho.
Em Almada, o município diz ter recenseado no PER 2.156 famílias. Destas realojou 1.221 e as restantes 988 vivem em zonas dispersas pelo concelho, com maior incidência nas freguesias da Costa da Caparica e Trafaria.
A autarquia não tem data prevista para conclusão do PER, que foi complementado com recurso com o Programa de Luta Contra a Pobreza e o CostaPolis.
Quanto a outros programas, apesar de diversas candidaturas e por falta de capacidade económica apenas 10 famílias conseguiram resolver a sua situação através do Per Famílias. Quanto ao Prohabita a autarquia ainda está a elaborar a candidatura.
Na Área Metropolitana do Porto, o município que mais barracas apresentou no recenseamento do PER foi Matosinhos, com 3.745, de acordo com dados facultados pelo IHRU. A autarquia tem ainda por aprovar 1.438 fogos, o que representa uma taxa de 64 por cento de execução.
Depois de Matosinhos aparecia Vila Nova de Gaia, com 3.349 barracas no recenseamento, faltando concluir (construir ou comprar) 1.053 fogos para realojar as famílias, e o Porto, com 1.349 barracas e uma taxa de execução de 70 por cento (falta concluir 408 casas para realojamentos).
Contudo, ao abrigo do Prohabita e do Decreto-Lei 226 de 1987, que definia um regime de cooperação entre o estado e as autarquias para realojar através de arrendamento população que vivesse em barracas, estava prevista a construção/compra/reabilitação de 12.029 fogos para realojamentos, dos quais falta aprovar 4.295.
Mas o problema da habitação não se fica pela população que vive em barracas e pelo PER, cujas lacunas foram ao longo dos anos apontadas por todos os partidos da oposição.
Os bairros sociais têm sido muitas vezes focos de violência e delinquência, mostrando a falta de apoio na integração dos seus habitantes, impossibilitados por questões financeiras de aceder ao mercado de habitação privado.
Em muitos deles, propriedade das autarquias ou do Estado, a degradação dos edifícios ajuda à falta de identidade dos moradores e a opção já começou a ser a venda das casas aos actuais inquilinos, responsabilizando-os pela manutenção do património.
Exemplo disso são alguns bairros em Lisboa, como os Lóios e as Amendoeiras, para onde está prevista uma operação de reabilitação conjunta da Câmara de Lisboa e do IHRU.
No Porto há mais de 45 mil pessoas a viver em bairros municipais e a autarquia não tem conseguido convencer os moradores a comprar as casas.
Entre 2004 e 2006, foram alienadas apenas 148 das 1.329 casas à venda em sete bairros.
Aliás, o líder do PSD prometeu apresentar o mês passado no Parlamento um programa para recuperação de bairros sociais em Lisboa e Porto, propondo, em simultâneo, o aproveitamento de fundos comunitários para apoio social aos seus moradores. Até agora a proposta ainda não foi apresentada.
Mas a semana passada, durante uma visita à Zona J, em Chelas, Luis Filipe Menezes voltou ao assunto, sublinhou o perigo dos bairros sociais se transformarem em “verdadeiras bombas relógio” e insistiu na ideia de um “Polis social”.
Segundo defendeu, o Estado deveria “assumir aquilo que pediu às autarquias, que foi o investimento para a aquisição dos edifícios [de habitação social] e a sua construção e, em contrapartida, as autarquias definirem projectos de investimento em creches, em escolas, em lojas sociais do cidadão, no combate à toxicodependência, na promoção da segurança”.
Para apontar caminhos a seguir pelas políticas de habitação em Portugal, incluindo gestão dos bairros sociais, está a ser elaborado para o IHRU um Plano Estratégico de Habitação para o período 2007/2013.
No diagnóstico inicial apresentado em Outubro do ano passado, os técnicos apontam para a necessidade de construir cerca de 200 mil casas para suprir as carências habitacionais.
Referem ainda que há mais de meio milhão de casas sobrelotadas, 1,6 milhões a precisar de pequenas e médias obras e 326 mil muito degradadas.
Lusa/Fim
Susana Oliveira